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Disparatada: Quem mais tem medo dos índios gays?

Há alguns anos, quando fazia parte de um grupo de discussão on-line de jovens católicos, fui repreendido por algumas lideranças por postar uma notícia sobre o preconceito que alguns indígenas estão sofrendo por serem gays, ou de alguma forma por serem atraídos afetivos-sexualmente por outros homens.

Naquela ocasião fui acusado de ser o único interessando na temática da homossexualidade. "Nenhum jovem quer discutir esse tema", diziam os mais conservadores da pastoral. Em meio ao pânico moral que eles mesmo criaram, não se propunham perguntar "Por que comumente os jovens católicos não heterossexuais não se expõem oficialmente nas atividades pastorais?"

Alguns anos se passaram, e, faz tempo que venho processualmente perdendo a catolicidade. O que não significa que tenho me tornado alguém sem fé. Parafraseado um poeta, "o menino sai da Igreja, mas a Igreja não sai do menino".  Por isso, nessa semana, lembrei-me desse triste episódio.

Tal lembrança saltou da memória porque li uma matéria dizendo que a Regina Duarte (a atriz global) também tinha medo de índios, neste caso, independentemente de serem gays. Ela está assustada com o avanço da luta pela demarcação das terras indígenas no Brasil; como se esse avanço fosse mesmo real ou no ritmo que os índios necessitam. Ela, "coitada", se vê ameaçada em seu direito de ter a(s) tal(is) propriedade(s) privada(s) que garantimos na constituição.

Na imprensa nacional foi divulgado que, segundo o Centro de Estudos Ambientais, ela é proprietária de terras e áreas pertencentes a comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul, na faixa da fronteira entre Brasil e Paraguai, onde tantos indígenas continuam sendo exterminados.

Mas, o que a Regina Duarte e os jovens ditos cristãos que tive a oportunidade de conviver há alguns anos atrás têm em comum? Ter medo de índios. Ora, não deveria ser os índios que deveriam ter medo deles? Afinal, os grandes proprietários de terras indígenas, como a família e parte dos amigos da referida atriz, não são hoje os poderosos que dificultam o pagamento da dívida histórica que temos com esses povos? A Igreja, defendida cegamente por muitos cristãos jovens, não foi co-responsável pelo extermínio de parte dos indígenas destas terras?

Você deve estar se perguntando também: "Mas o que isso tem a ver com essa coluna que se propõe de forma disparatada a pensar gênero e sexualidade?" Acho que tem tudo a ver, primeiro, porque os índios, seja por terem jovens se assumindo enquanto não heterossexuais, ou por reivindicarem o direito a terra (que para eles, em uma dimensão maior do que a nossa, é o mesmo que lutar pela vida), são tidos como ameaças a determinados grupos sociais, muitos destes grupos também conservadores e resistentes aos chamados "direitos LGBTs".

O segundo motivo é que, nós que não somos pecuaristas/fazendeiros ou jovens católicos, ou pelo menos, não somos ricos deste tipo e nem católicos deste tipo, não podemos ficar a mercê dessas histórias de exclusão. Ainda que nunca iremos nos aproximar de um índio, seja gay ou não, por vivermos tão distantes daqueles poucos que sobreviveram, temos que nos inteirar pra nos posicionar.

Há ainda um terceiro motivo para pensarmos nessas "histórias de índios". Se estamos mesmo afim de lutarmos contra a homofobia, além de esta luta não poder ser restrita a nossos pares não-índios, ela precisa ser compreendida na perspectiva de que, não basta termos um país livre de preconceito com a diversidade sexual mas cheios de injustiças étnicas, raciais, econômicas, regionais, etc.

É preciso pensarmos em outro Brasil, menos medroso e mais ousado no que se refere a igualdade de direitos, porque só viveremos em um país não homofóbico, se as pessoas conseguirem sobreviver para poder testemunhá-lo. Nesse sentido, é fundamental garantir que indígenas tenham terras e sobrevivam, assim como outros povos também excluídos e muitas vezes economicamente empobrecidos.

A luta pelo fim do preconceito é mais ampla do que a luta pela diversidade sexual. E afirmar isso não é minimizar as especificidades de quem tem morrido por ser viado, nem mesmo dizer que primeiro e mais urgente é a luta por uma economia não-capitalista, mas mostrar que não podemos lutar sozinhos porque não somos as únicas vítimas do perverso sistema moral-econômico que escolhemos reproduzir. E, mais, não podemos ser um movimento social de pauta única, porque os nossos inimigos são diversos.

Talvez o primeiro passo seja entender que, se tem gente com medo dos indígenas (sendo pelo fato deles serem gays ou estarem em luta pelas terras que roubaram deles), é porque eles ainda são fortes. Em vez de enfrentarmos o medo, temos que ser sábios para analisar de qual lado os medrosos estão, e saber agir politicamente para que esse medo aumente. É necessário causar medo pelas transformações que podemos engendrar. Quanto maior for o medo, mais próximos das conquistas de todos os direitos estaremos.

*Tiago Duque é sociólogo e tem experiência como educador em diferentes áreas, desde a formação de professores à educação social de rua. Milita no Identidade – Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual. Gosta de pensar e agir com quem quer fazer algo de novo, em busca de um outro mundo possível.


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