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A GQ e as revistas gays

No ensaio, Tiago Leifert encarna Tintin, de HergèAbrimos a revista. Um relógio do lado direito. Uma marca do lado esquerdo. Louis Vuitton. Continuando. Mais um anúncio de página dupla. Ermenegildo Zegna. Nada mal, penso eu.

Não preciso nem folhear a revista para tirar dela minha primeira conclusão. A edição brasileira da "QG" é tudo aquilo que as revistas gays tupiniquins sempre sonharam em ser e nunca conseguiram.

Salvo honrosas exceções d’A Capa e da "Junior", evidentemente. São as duas as únicas que, não sem muitos esforços, resistem bravamente neste tão controverso mercado editorial. E que souberam se adaptar ao público e às suas realidades.

Por que eu disse que as revistas sempre sonharam em ser "GQ"? Bem, acompanhei o surgimento destas publicações na época em que integrei a equipe deste site. Isso há um milhão de anos.

Lembro da primeira "DOM" dando dicas de como organizar o closet. Ao avançar pelas páginas da "GQ" topo com a mesma ideia. Diagramada de modo diferente, ok, e sem todo aquele alarde, mas ainda assim, presente.

A "GQ" é destinada a um tipo de público "diferenciado", sofisticado. Homens descolados, modernos, para quem a imagem e a aparência contam muito, ao menos aparentemente.

Não é uma revista para qualquer um. Seu público alvo é homens com cerca de trinta anos e com salários acima de R$ 10 mil, verdadeiros gentlemen – mas que podem ser playboys, ou coxinhas – da sociedade. Mas isso é uma leitura minha. Talvez seus editores nem confirmem minha percepção.

O mercado de luxo anda de vento em popa no país. Não sei que tipo de homem compra/compraria esta revista. Mas com anúnciantes tão fortes, venda em banca não deve ser uma preocupação dos responsáveis pela publicação. Ela é uma espécie de guia de bom gosto. Urgh.

Achei necessário traçar este paralelo, porque vejo uma dualidade incrível existente no mercado editorial quando este nicho entra em contato com as sexualidades.

Consumo, consumo, consumo. A "GQ" trata basicamente sobre isso. E isso estava no DNA das revistas gays quando de seus surgimentos – tiro A Capa desta afirmação. Desde seu primeiro número a publicação-irmã deste site já tinha uma preocupação com conteúdo.

Enfim. O mercado de anunciantes para o público gay no Brasil é bem pequeno as revistas deste segmento tiveram que ir se adaptando ao seu público e passaram por diversas modificações desde suas primeiras edições. A quem se destina essas publicações? Quem são seus leitores de fato? Por algum motivo elas tiveram que dar mais espaços a conteúdos e reportagens, não? Temas como punks ou skinheads gays seriam inimagináveis há alguns anos nestas revistas quando elas começaram a circular.

São alguns questionamentos que me faço constantemente quando pego para ler estas revistas. Até porque, sempre me pergunto. Quem é a bicha que ganha R$ 10 mil. Quais seriam os temas de seus interesses? O que ela iria ler? Quando "Junior", "Dom" e "Aimé", começaram a circular diziam que o público ao qual elas almejavam não gastaria dinheiro com elas. Comprariam a Out. Mas sério. Qual a gay neste país que compra a Out? Tirando as redações dos sites gays? 

Lembro que a "DOM" e, salvo engano, a "Junior" foram muito criticadas por alguns acadêmicos-ativistas porque incluíram em suas primeiras seções de consumos, produtos que ultrapassavam a casa do milhar. Só pra se ter uma ideia do contraste que eu tô querendo expor aqui, na GQ há indicações de produtos cotados em dólares. Nem é tão muito – pro padrão do público-alvo pretendido. Coisa de 500 a 800 reais convertidos mais impostos. Isso, por baixo.

No editorial de moda, um relógio que o lindinho do Tiago Leifert usa custa mais do que eu recebi pelo último frila bem remunerado que eu fiz. Enfim…

No começo desta semana, para repercutir a decisão do STF o jornal "O Globo" publicou uma entrevista com João Silvério Trevisan. Nela, o escritor atenta para uma falsa bissexualidade dos brasileiros. "Homens adoram transar entre si e depois vão casar com mulheres".

É justamente por ignorar essa homossexualidade enrustida no país que a GQ torna-se um case de como deveria ter sido o mercado editorial gay brasileiro – ou como ele sonhava em ser.

Há um artigo de Tony Parsons [autor de Disparos no Front da Cultura Pop (se alguém por aí, tiver o livro, me empresta)] muito interessante na revista – eu não sei ainda se gostei ou não – que aponta o pornô como a ruína do homem. Por um lado, ele expõe um lado perverso da pornografia como substituto do sexo real. O que acho até válido enquanto crítica e exercício de pensamento mas perigoso no sentido que dita: cavalheiros não se masturbam com pornô. Creio que também não é por aí.

Pra finalizar só queria atentar para o fato de que não é mera coincidência a "GQ" ser uma publicação da editora Globo.  

Tampouco é de se estranhar que o Brasil não tenha visto surgir nenhuma revista lésbica até agora. Como trabalhar este público junto a anunciantes? Onde é que as lésbicas compram roupas por exemplo? A Marisa, que anuncia em revistas femininas, por exemplo, seria uma anunciante?

Tanto Globo como Abril esboçaram projetos de uma revista gay que não saíram do papel. Credito isso à bissexualidade tão bem definida por Trevisan. Afinal de contas, revistas são negócios. E apesar de ter potencial, o mercado gay tem muito a aprender ainda. Continua engatinhando.

É isso.


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